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September 26, 2011
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   -Senhor, eu devo aconselhá-lo a voltar para sua cabine. O navio pode ser perigoso nestas situações.

   O Saint Anne balançava violentamente vítima da maior tempestade que já presenciara.  À exceção de alguns novos marinheiros, a maioria dos que estavam ali eram experientes. Estes estavam apenas assustados. Os demais marinheiros, novatos, rezavam por suas vidas. Alan era o único ali que não tinha qualquer instrução de como agir em uma situação como aquela e, aparentemente, era o que tinha mais forças para manter a calma. Vestia um sobretudo preto que cobria seu corpo magro e alto. Tinha o queixo fino e o nariz adunco. Seus olhos castanhos eram vivos e passavam a impressão de que escondiam grande sabedoria. Seus cabelos eram também castanhos e lisos, divididos de maneira desigual da testa à nuca. Há algumas noites tivera um sonho com água, sonho esse que atribuiu ao fato de que estava pela primeira vez em um navio de grande porte.

   Alan, o escritor, ignorou o conselho do marujo. Seguiu em frente pelo corredor se apoiando ora em uma parede, ora em outra. Lâmpadas laterais piscavam perdendo força. Os canos que passavam pelo teto baixo lançavam sombras que criavam um efeito tétrico. Enxergar à frente era difícil. Em um momento houve breu, todas as luzes se apagaram e ficaram assim por minutos. De repente Alan não enxergava mais nada. Era um sinal claro de que deveria parar, voltar para sua cabine, para a sua segurança. Não seria o último naquela manhã e não seria o único que ele ignoraria.

   Agora ele tateava, não apenas com as mãos, mas com o corpo inteiro jogado contra a parede. Avançava a passos lentos, sempre em frente, até que o vento forte e molhado acertou em cheio seu rosto. Alguém esqueceu uma janela aberta e a tempestade encontrou ali a única entrada para o interior do navio e, como se quisesse possuí-lo por completo, se concentrava ali com vigor. Do lado de fora ele pode ver a forte neblina que cobria o céu negro e o mar turbulento. Mal acreditava que eram apenas seis horas da manhã. Em um dia normal, estaria tudo claro e não seriam necessárias as luzes dos corredores. Não era um dia normal. Nesses dias o mais sensato a fazer seria voltar à sua cabine, esperando a tempestade ceder para que ele pudesse voltar a praticar suas habilidades interpessoais. Havia muita gente para conhecer, homens com quem conversar e mulheres que beijar. O segundo sinal apareceu claro em sua frente e foi ignorado. Alan segurou o vidro que estava contra a parede interior e tentou forçá-lo contra a abertura para trancá-lo, mas a força do vento era de tal maneira impressionante que quando finalmente conseguiu, o escritor se sentia exausto. Os poucos segundos que duraram o embate foram suficientes para deixá-lo encharcado da cintura para cima.

   Após fechar as janelas, as luzes voltaram. O momento de alívio foi interrompido por uma onda que fez o Saint Anne chacoalhar, arremessando pessoas e objetos por todos os lados. Alan viu apenas quando um marinheiro foi arremessado de um corredor perpendicular ao que ele estava contra a parede externa do navio. O marinheiro soltou um grito de dor enquanto segurava seu punho recém-quebrado. Alan se aproximou o suficiente para ver que a  expressão de dor do homem se transformava naquela de alguém que está à mercê de um inimigo superior: a expressão de quem implora pela chance de seguir adiante com vida. Sem dizer uma palavra, o escritor se aproximou mais e o ajudou a se levantar. Juntos seguiram por três corredores até chegarem a um salão onde se reuniam mais quatro homens. Eles discutiam em voz alta, provavelmente tentando encontrar a melhor solução para os problemas pelos quais atravessavam. Alan não saberia dizer, pois novamente ignorou o que eles diziam. Como se livrasse de um peso durante uma corrida, Alan largou o homem sobre os ombros de outro, logo antes de dar as costas para o grupo e seguir seu caminho.

   O Saint Anne era um grande navio de cruzeiro com 155 metros de comprimento e 16 mil toneladas. Em um ano difícil como aquele, como era de se esperar, muitos quartos estavam desocupados. Aqueles que ainda tinham algum dinheiro e insistiam em manter as aparências compravam os quartos para aquela viagem pelo Pacífico norte. Os que perderam tudo mas tiveram a dignidade de se manter vivos não tinham tempo a perder e lutavam para reconquistar o que um dia parecia ser de direito. Armich, o dono do conglomerado que entre outras atividades mantinha o navio, pertencia ao segundo grupo. A fim de manter as aparências, ele cedia lugares no seu cruzeiro para que pessoas pudessem viajar de graça. Os critérios eram simples. Os lugares eram cedidos primeiramente para aqueles a quem Armich devia favores. Se ainda assim houvesse muitos lugares vazios, ele os cedia para membros de famílias que, ainda que na miséria, gostariam de viver a fantasia de um cruzeiro. Armich sabia que poderia cobrar tais favores no futuro. Alan pertencia ao primeiro grupo, mas não de maneira direta. Seu primeiro livro aceito por uma editora era um sucesso, mas a empresa não tinha como pagar o que foi prometido. Armich devia um favor a Edward, dono da editora Golden Bird. Assim, indiretamente, Alan foi agraciado com uma cabine no Saint Anne, ainda que fosse da pior classe.

   Alan finalmente chegou ao nível do convés. Destravou uma das portas e puxou a maçaneta. A força do vento empurrou a porta com ele com tal força que o pegou de surpresa. Foi acertado na lateral do rosto e na testa e jogado ao chão. Novamente a chuva o molhava mas desta vez percebeu que não era apenas água que escorria pelo seu rosto.  Sentia muita dor. E pela primeira vez desde que acordou Alan sentiu que não gostava mais da sensação que o impelia a sair naquela tempestade. Seu bom senso conseguiu pela primeira vez ter voz no que era o monólogo da loucura. Mas estava próximo demais do fim para recuar. Levantou-se e atravessou a porta. Após a luta contra o vento Alan chegou ao convés. O lugar estava vazio, mas o sentimento de solidão e desolação que sentiu veio, paradoxalmente, da presença de algo.

   Sangue, água e cabelo se misturavam na testa encobrindo parcialmente os olhos desolados e sem esperança. Alan olhava para cima. Através da forte neblina ele mal via as grandes chaminés do navio, por onde deveria sair vapor quente. A sensação agora era de que a única coisa quente era o sangue em seu rosto. Todo o seu corpo e todo o mundo pareciam gelados agora. Atrás das neblinas ele podia ver duas figuras arredondadas de tom esverdeado. Zonzo, percebeu o contorno em volta delas. Poderia ser um rosto, mas se fosse tal homem deveria ter ao menos uma centena de metros. Piscava com forças, buscando a realidade. Talvez o choque na cabeça o tenha feito confundir uma nuvem mais densa com criaturas que pertenciam apenas a seus livros. Tentou desacreditar, negar. Implorou pelo desmaio, que caísse. Quando aqueles grandes olhos verdes se aproximaram e o encararam Alan viu o que havia neles. Um vazio e uma verdade horrível: que não apenas existiam criaturas de outros mundos, cuja presença poderia esmagar nossa vontade e sanidade, como nos olhos daquela, nosso mundo encontraria sua última morada. Aqueles olhos verdes eram o cemitério das coisas deste lugar que chamamos de casa.
   Alan desejou mais que o desmaio. Desejou a morte. Uma onda imensa que parecia obedecer a uma vontade exterior chocou-se contra o navio. A torrente invadiu o convés atirando o escritor contra o mar. Pouco antes de apagar, ele percebeu que nem mesmo a morte poderia tê-lo salvo daquele ser. Sua mente então se desfiou. O emaranhado da razão e lógica se desfez, sobrando apenas um corpo vazio atingindo as ondas altas do mar.
Começou com a vontade de escrever a introdução de uma aventura de Rastro de Cthulhu. Mas resolvi dar um final ao personagem.

Espero que gostem da minha primeira investida no mundo de Lovecraft.

P.S.: para variar, não posso colocar acentos no título do texto.
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:iconanacapelari:
AnaCapelari Featured By Owner Mar 17, 2014
Marcelooo... muito bom.. nao tenho nem palavras... adorei!!!
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:iconencaitarherenvarno:
EncaitarHerenvarno Featured By Owner Sep 28, 2011  Student Writer
Cthulhu... "Monólogo da Loucura" + o desenho de um bicho lula me fizeram imaginar algo do tipo xD

Muito bom, e final perfeito, diria até que o personagem teve sorte em morrer, perto de como a mente dele ficaria em caso de sobrevivência ^^
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:iconmarcelopvf:
Marcelopvf Featured By Owner Sep 28, 2011  Hobbyist Writer
Valeu pelo elogio. =)
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:iconmadchronicler:
MadChronicler Featured By Owner Sep 26, 2011  Student Writer
Muito bom!

Tudo que eu podia lhe falar sobre o texto já foi falado. Creio que foi o melhor que você escreveu até hoje.

Gostei muito do fim. Você deveria escrever mais contos com psicológico profundo.
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:iconmarcelopvf:
Marcelopvf Featured By Owner Sep 28, 2011  Hobbyist Writer
Obrigado, Job!
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:iconnatcruella:
natcruella Featured By Owner Sep 26, 2011
Amei seu texto, amore!
Adoro seu jeito de escrever, e de guiar o leitor pelo texto.
Fiquei com dó do Adam, mas imagino que se alguém realmente visse uma coisa dessas ficaria no mesmo estado...

Aprovadíssimo!! hehehehe
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:iconmarcelopvf:
Marcelopvf Featured By Owner Sep 28, 2011  Hobbyist Writer
Obrigado, gatinha =)
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