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August 6, 2012
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Ela corria de braços bem abertos. Os raios de sol dançavam em reverência àquele momento tão esperado. A luz beijava seu rosto ainda marcado pelas lágrimas. Corria pelo asfalto, entre carros de muitas cores estacionados em frente a jardins de verdes e árvores.
Ela corria e o vento a acompanhava. Ela corria e sorria porque ela amava. Ela corria de braços bem abertos porque sofrera. Porque o destino sempre fora um grande piadista e gostava de desentendimentos, meias frases e silêncios incômodos.
Ela corria para ele. Finalmente, definitivamente, para ele.

***

Eles se conheceram em uma boate. Ela tinha dezenove anos. Ele, uma carteira de identidade falsa. O cabelo escuro estilo Chanel dançava no salão, o tênis de skatista pedia uma bebida para tomar coragem. Na bagunça do lugar o copo cai, a bebida se perde e a paciência se vai. Enche de ar os pulmões e de vontade o coração. É ela.
Ele disse que a amava. Foram as primeiras palavras que ele disse para ela. Ela reparou na barba mal feita e na estranha sinceridade que aquela voz carregada de medo trazia.
E nessa noite lábios de gloss se encontraram com lábios de nervosismo e se uniram em paz.

***

Não trocaram números naquela noite. Despediram-se, testa com testa, do lado de fora. Estava frio e incômodo, mas as mãos não se deixavam ir. Tremiam e riam, bobos de não sei o quê. De repente as memórias voltam à tona, a cabeça se põe no lugar e ela se pergunta "o que estou fazendo?".

"Tenho que ir agora"

***

Encontraram-se outra vez na sorveteria. Ele já trabalhava, ela estava meio dura, mas tinha que fazer um sacrifício depois de todo o trabalho que ele teve para descobrir quem era ela. Nesse dia conversaram mais. Muito mais, tanto que o tempo passou e eles não viram. O sol se pôs e nasceu, estrelas passaram e a chuva veio forte, tirando as folhas da mesma maneira que faz o outono. E à medida que o inverno chegava e o frio crescia, aumentava também o carinho. Um ano se passou sem que percebessem.

***

O coração batia apertado. Ele prometeu nunca mais fazer isso. Mas não tinha culpa. Aliás, ela é quem era irresponsável. Ele, com dezoito anos, já trabalhava e tinha responsabilidade. E estava construindo um futuro para os dois, não estava? Será que ela não podia suportar um atraso? Afinal de contas ela não trabalhava, tinha a tarde toda livre. Ela podia chegar mais cedo se quisesse.
Ela espera. O coração bate apertado. Ela se diz que está só preocupada. Meia hora de atraso sem responder às mensagens de celular dela, só pode ter acontecido algo, não é? Mas será que no fundo ela não torcia para que talvez tivesse acontecido algo? Se ele tivesse sido assaltado e tivessem roubado o celular dele, ela entenderia o atraso e cuidaria dele. O abraçaria, beijaria seu rosto de barba bem feita e diria que tudo bem. Até sentiu culpa pelo que desejava de leve, bem escondido no coração.
O que ela queria de verdade é que ele tivesse uma razão para o atraso. Porque aquilo tudo já a estava machucando e ela queria que parasse. Ela queria que ele parasse. Não precisava se preocupar tanto com o futuro a ponto de esquecer o presente.

"A ponto de esquecer-se de mim"

***

Ela deixava o cabelo crescer. Parou de pintar e o castanho claro voltou a tomar conta. São nesses momentos de depressão que as artes afloram e queremos nos expressar. Ela fazia origamis e se forçava a sorrir por trás daqueles óculos. O estojo das lentes estava abandonado em algum canto desde que terminaram em uma briga. Era a hora de esquecer, de deixar para trás, ela sabia disso. Mas o que fazer com a sensação de que deixa-lo para trás é deixar tudo que ela era para trás?
Ele agora tinha mais tempo. Tempo para o tédio, para ver o tempo passar. Tempo para a televisão, tempo para comédias sem graça, tempo para nós na garganta, para as saudades imensas. Para perceber que tinha sido um imbecil ao jogar na cara dela que ela era preguiçosa, que ele era mais novo e já estava com a vida feita. Tempo para faltar ao trabalho e comprar flores. Tempo até apertar o passo, conseguir ganhar cada segundo. Correr de vez em quando, correr sempre se for preciso, só para estar mais perto a cada segundo. E cada segundo economizado importava. E se ele tivesse chegado só mais alguns segundos depois, ele não a teria visto chegando em casa àquela hora de manhã segurando nos braços de outro homem, sorrindo sincera. Não a teria visto ficando nas pontas dos pés e tomando a inciativa para beija-lo. E se tivesse chegado alguns minutos depois, poderia tê-la visto chorando de arrependimento, porque aquela pessoa não era ela. Mas ele chegou na hora em que chegou, viu o que tinha que ver e achou melhor seguir adiante com a vida.

***

Ela percebeu a frieza em seu olhar quando se encontraram depois de um mês. E ele percebeu que ela sentiu ciúmes quando, depois de outro mês, ela o viu com sua namorada. E quando se encontram novamente, depois de quase seis meses, ele não viu graça no namorado dela. E só foi mais tarde, quando ele riu e olhou para o lado e viu que não era ela, e sim outra a quem ele chamava de namorada, mas que não a amava, que ele percebeu.

***

E não foi sem surpresa que ela o encontrou sentado em um banco próximo à casa dela. Ele passava por um desses momentos em que a depressão atinge de surpresa e nos arranca a vitalidade e tudo o que procuramos é um ombro amigo. Ela, claro, não acreditava que poderia ser esse ombro amigo. Não se falavam há anos e ela mal se lembrava do nome dele. E ele riu desse comentário. E ela riu da risada dele.

"O que estou fazendo?"

Ele falou por algumas horas sobre a falta de sentido da vida faz quando se tem 24 anos, dinheiro e até mesmo a casa própria. Ela concordava, pensando, aos 26, que ainda morava na casa dos pais, estava começando um novo emprego e, no fundo, tinha medo de que não fosse ser alguém na vida. Não queria ser vista para sempre como uma... como foi a palavra que ele usou mesmo? Preguiçosa. Sim, foi essa a palavra. E o rancor voltou.
Ele chorou, com medo. Ela olhava o relógio, impaciente. Ele percebeu que incomodava.

"O que ele esperava que fosse acontecer?"

***

Ela não entendeu a princípio o que ele tinha nas mãos. E foi só quando ele disse "pistache" que ela percebeu. A casquinha estava inteira, mas o sorvete estava todo derretido, escorrendo pelas mãos dele. Uma bagunça sem tamanho. Ele disse que ela não podia tomar um sorvete naquele estado, mas sabia onde tinha um bom.
Ela estava preparada para discutir. Em vários momentos da vida ela preparou o discurso. Foram tantas versões que era difícil escolher uma. Talvez devesse começar atacando a indiferença dele, o modo como ele se esquecia dela, como sempre se atrasava. Ou seria melhor iniciar a briga dizendo que não adiantou nada ele ser tão ativo no trabalho sendo que anos depois ele voltou para chorar aos pés dela. Ou quem sabe falar de como foi triste ele a ofendê-la daquele jeito. Ela, que sempre que alguém usava a palavra por perto se contorcia em raiva e angústia. O pior era que talvez ele estivesse certo. Que raiva!
Ele não estava preparado para ouvir tudo aquilo. Esperava que a velha sorveteria a animasse um pouco. Queria saber da vida dela, o que ela estava fazendo. Mas, se a sorveteria se deteriorou tanto em cinco anos, qualquer chance de manterem um relacionamento amigável tinha se ido. Ela falou, apontou e chorou. Ele, surpreso, se calou. Ela não se despediu.

"O que era mesmo que ele queria dizer?"

***

E porque ele parecia tão surpreso? Ele disse alguma coisa? Ela honestamente não se lembrava. Por alguns dias pensou em pegar o telefone, ligar, pedir desculpas, tentar marcar alguma coisa. Mas a coragem sempre faltava. E em uma dessas revistas especializadas em comportamento no trabalho ela leu sobre a jovem promessa do mercado que aos 25 anos já pleiteava cargos de poderosos executivos e que largou tudo por outros projetos.
E só um tempo depois ela ficou sabendo que esse mesmo jovem tinha comprado uma sorveteria na cidade e que as reformas estavam quase no fim. Ninguém parecia entender o porquê e ela tinha somente uma vaga ideia. Mais honestamente uma esperança.
Ele limpava o pó da bancada. A reforma estava no fim e eles abririam em breve. Ele precisava de ajuda, não sabia mexer sozinho com tudo aquilo. Ele era melhor com números do que com objetos. Chamou alguém que com certeza o ajudaria. Afinal, ela tinha entendido tudo, sido compreensiva e mesmo depois de terem terminado o namoro, continuaram amigos.
Ela o viu na sorveteria com a ex-namorada.
Ele a viu do outro lado da rua. Os olhos se cruzaram.
Ela corre, ele a perde.

"A nossa sorveteria, onde tudo começou. Aquele idiota!"

Ela chorava.

***

Ela não quis atender ao telefone. Mas não resistiu a curiosidade e leu a mensagem no celular. Havia instruções. Ela procurou o endereço na internet. Estava tudo lá: os bancos novos, a parede pintada, só o nome tinha mudado, era agora uma daquelas palavras que não diziam nada para os outros, mas escondiam um mundo de significados para eles.

E foi na parte de sabores que ela viu escrito.

"Pistache"

E em letras menores, ainda assim bem visível.

"Só para ela, porque a amo."

Saiu para a rua. Tinha que ir à sorveteria, tinha que vê-lo. Não precisou muito, ele estava logo ali, próximo, alguns metros distante no meio da rua. Era só correr. Correr para ele para a vida que eles planejaram enquanto o tempo passava sem avisar do lado de
fora daquela velha sorveteria.

"Eu amo você, seu tonto!"

*

*

*

FIM
E é...
:iconanacapelari:
AnaCapelari Featured By Owner Mar 17, 2014
Nossa.. deveria virar um filme... a historia ficou muito boa e eu fiquei com vontade de tomar sorvete de pistache...
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:iconnatcruella:
natcruella Featured By Owner Aug 6, 2012
Paro agora pra pensar em nossos “sorvetes de pistache”. Todas as lembranças importantes e marcantes que acumulamos nos nossos breves cinco anos de namoro. Meu pinguim, minha árvore alta, meu amor.
Te amo, Elo.
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